Edição 32 - Ver todas
Prof. Francisco Alves
Professor da Ufscar, de São Carlos, levanta o problema que cada vez mais tem gerado discussões em congressos e eventos
O cenário está montado: a agroindústria passa por uma crise na produção e exportação da soja e se organiza para que o Governo opte pela produção do biodiesel por meio da oleaginosa de grandes extensões, ou seja, a soja. Esta mesma preocupação tem o professor Francisco Alves, da Ufscar. Já no início da conversa, Francisco avisa que há uma guerra no que envolve o biodiesel familiar e a agroindústria e ressalta: “A crise está no interior do governo”.
Francisco Alves formou-se economista pela Universidade Federal do Rio de Janeiro. Em seu mestrado, realizado na mesma universidade, trabalhou questões como fatores do crescimento das cidades.
Lidando sempre com temas como relações de trabalho, desenvolvimento sustentável, movimentos sociais e economia solidária, fez seu doutorado, na Unicamp, em ciências econômicas, com foco nas lutas dos trabalhadores assalariados rurais. Atualmente, Francisco Alves é professor na Universidade Federal de São Carlos, em São Paulo.
Confira a íntegra da entrevista, concedida ao site IHU-On Line, do Instituto Humanitas Unisinos que, devido à sua relevância, cedeu o material à Revista Biodiesel.
Revista Biodiesel Quais são os maiores entraves entre o biodiesel familiar e a agroindústria?
Francisco Alves Há uma guerra entre o biodiesel pensado pelo Ministério do Desenvolvimento Rural e Reforma Agrária e o biodiesel pensado pelo Ministério da Agricultura. A crise está no interior do governo.
O pensado pelo Ministério da Agricultura tem como fundamento fortalecer e arranjar uma alternativa à queda de preço da soja no mercado externo.
O outro biodiesel é o que vê a possibilidade do pequeno produtor familiar produzir um produto que tenha mercado garantido. A soja vem caindo de preço no mercado externo já faz algum tempo e, portanto, está reduzindo a lucratividade dos sojicultores.
Então, uma das possibilidades é, no lugar de se utilizar soja para a venda direta no mercado externo, utilizá-la para produção de biodiesel, que pode ser produzido a partir de qualquer óleo. Basta ter uma fonte de óleo qualquer misturada com álcool na proporção de um litro de óleo para um terço de álcool para se obter biodiesel. O problema é o seguinte: a soja é um dos produtos que têm a mais baixa relação de óleo, produzindo menos óleo do que outras culturas.
Ela produz um terço do que produz a mamona e um quarto do que produz o dendê. O dendê e a mamona podem ser produzidos pelos pequenos agricultores. Então, se o Estado passa a assumir a compra, pelos menos, de parte do excedente de soja para produção de biodiesel, ele perde um mercado que renderia mais. É o mesmo efeito que o Pro-Álcool teve na década de 1970 para a crise de preço do açúcar.
Ele foi criado para resolver o problema da queda de preço internacional do açúcar no mercado externo. Então, o açúcar despencou no mercado externo, os usineiros bateram às portas do Estado para arranjar um jeito de resolver o seu problema financeiro.
A alternativa foi o Pró-Álcool, ou seja, as usinas, além de produzir açúcar, vão produzir álcool para venda no mercado interno fazendo frente à subida de preço do petróleo. Ele foi vendido como uma alternativa brasileira à crise do petróleo, mas, na verdade, foi o resultado da crise dos preços do açúcar no mercado externo.
Os preços do açúcar despencam; você cria o álcool e cria preço para o álcool, cria demandas para o álcool, porque ele vira energia, introduzindo-o na matriz energética, misturando-o à gasolina e, portanto, proporciona preço e demanda para carros que são movidos a álcool.
O biodiesel de soja é exatamente isso, ou seja, uma forma de resolver os graves problemas de caixa dos produtores de soja provocados pela crise de preço internacional da soja.
De um lado, uma parte do Estado deseja que o biodiesel seja fundamentalmente da agricultura familiar no sentido de criar alternativa de produção e mercado para os produtores familiares. Trata-se de uma antiga reivindicação dos defensores da reforma agrária. Por outro lado, os sojicultores, que defendem que o biodiesel seja fundamentalmente de soja para resolver o problema de preço dos sojicultores.
Revista Biodiesel Qual é a solução que o Governo pode oferecer?
Francisco Alves O governo está tentando dar uma no cravo e outra na ferradura, ao afirmar que o biodiesel é um programa fundamentalmente da agricultura familiar. Ele admite que no Nordeste a produção de biodiesel virá fundamentalmente da agricultura familiar e no Sul virá da soja.
Eu fico pensando o seguinte: quando você coloca a soja e seus produtores com toda capitalização que eles têm frente aos produtores familiares, quem vai levar vantagem nessa queda de braço? A história tem mostrado que quem sempre tem ganhado nessa queda de braço são os grandes proprietários, mais capitalizados.
O Pro-Álcool, quando nasceu, foi pensado também em ser produzido a partir de microdestilarias, inclusive utilizando produtos da agricultura familiar no caso a mandioca. O que se produziu no Brasil de álcool vindo da mandioca?
O que se produziu no Brasil de álcool vindo de microdestilarias? Coisa nenhuma. De novo a gente corre o risco de ter os pequenos produtores, os primeiros pensados nessa alternativa do biodiesel, sendo colocados de fora. Eu sou um defensor do biodiesel. Agora, eu acho que o governo tem que deixar claro quem ele pretende beneficiar com o biodiesel.
Revista Biodiesel E como o senhor acha que o governo pode intervir a favor dos produtores de matérias-primas do biodiesel?
Francisco Alves À medida que esse biocombustível for sendo comprado pela Petrobras, ele pode direcionar isto. Não com certeza, porque o pessoal da soja também quer os mesmo incentivos dados aos pequenos agricultores. Você pensa numa unidade produtora lá no Centro-Oeste, numa cidade de produtores de soja. Parte dela vai produzir, além de soja, também cana. A cana será exportada, direcionada para produção de álcool, e parte da soja destinada para produção de biodiesel. Parte da produção de álcool produzido pela cana será associada à soja para produzir o biodiesel, ao mesmo tempo que parte do biodiesel, volta para as unidades agrícolas para moverem suas máquinas. E a eletricidade gerada a partir do bagaço de cana volta para as unidades agrícolas e o excedente de biodiesel e álcool é vendido para o mercado externo e interno. No papel é interessantíssimo.
Revista Biodiesel Como os produtores de oleaginosas podem manter a competitividade com esses produtores de soja?
Francisco Alves Esse é um tema muito difícil, porque depende fundamentalmente de uma relação de preço que varia de oleaginosa para oleaginosa e depende de uma relação de preço e produtividade agrícola.
Eu acho que a matriz que temos montado no Brasil beneficia os grandes produtores, e, portanto, você expor os pequenos produtores, produzam eles o que for, a competir diretamente com os grandes produtores, vai fazer com que eles “dancem”, como historicamente “dançaram”. Até porque todas as grandes tecnologias foram geradas para o grande e não para o pequeno.
O que se tem, do ponto de vista do biodiesel, é que a soja é a que menos rende óleo, perdendo para todas as outras. Porém, é a oleaginosa que o Brasil produz mais e tem uma enorme capacidade de instalação para produzí-la, provocada pelas duas décadas de expansão da soja Brasil afora.
Isso torna a soja competitiva. Do ponto de vista da produção agrícola e da relação entre soja e óleo, o país perde para vários outros. Sem contar um outro produto que está despontando como como uma possibilidade fantástica, que é o pinhão-manso.
A Embrapa vem investindo pesado no pinhão-manso, na domesticação do pinhão porque ele tem uma produção fantástica de óleo e é um produto praticamente de unidade nacional.
Existe o pinhão roxo no Brasil inteiro. É preciso vê-lo com uma grande perspectiva. Isso ainda está em estudo ainda, porque nunca se investiu, no Brasil, nisso, uma vez que aqui pesquisa agronômica é só para produto de culturas como a soja.
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